Os critérios clínicos essenciais para o diagnóstico
Diferente de outras condições de saúde que dependem de testes laboratoriais complexos ou biópsias específicas, o diagnóstico da hidradenite supurativa (HS) é eminentemente clínico. Isso significa que o médico dermatologista experiente baseia-se na história clínica detalhada do paciente e no exame físico presencial minucioso das lesões para selar o diagnóstico.
Para que o diagnóstico de hidradenite supurativa seja estabelecido com segurança, a literatura dermatológica internacional preconiza a presença conjunta de três critérios diagnósticos fundamentais:
1. Morfologia das lesões: Presença de lesões típicas, que se iniciam como nódulos inflamatórios profundos e dolorosos, evoluindo para abscessos, fístulas (túneis sob a pele) e cicatrizes fibróticas (em cordão).
2. Localização anatômica: Acometimento preferencial de áreas ricas em glândulas apócrinas e sujeitas a atrito constante, tais como axilas, virilhas, região perineal, glúteos e região inframamária.
3. Recorrência e cronicidade: As lesões devem apresentar um caráter recorrente ou crônico. Clinicamente, considera-se a ocorrência de pelo menos duas lesões inflamatórias nesse padrão em um período de 6 meses.
A importância de avaliar o histórico e a recorrência
Um dos maiores desafios no diagnóstico da hidradenite supurativa é o atraso diagnóstico. É muito comum que pacientes com HS recebam diagnósticos equivocados de furunculose de repetição, infecção bacteriana simples, cistos sebáceos inflamados ou doença pilonidal.
Durante a consulta, o dermatologista investigará minuciosamente o histórico de tratamentos anteriores. Pacientes com hidradenite frequentemente relatam o uso repetido de antibióticos comuns e a realização de procedimentos de drenagem cirúrgica de urgência que trazem apenas alívio temporário, com retorno rápido das lesões no mesmo local.
Além disso, o médico buscará identificar fatores de risco associados que corroboram o diagnóstico, como histórico familiar de hidradenite, tabagismo ativo ou passado, e índice de massa corporal elevado.
Classificação de gravidade: os estágios da doença
Após confirmar o diagnóstico, o dermatologista precisa classificar a gravidade da hidradenite supurativa para direcionar o melhor tratamento. A ferramenta de classificação mais utilizada mundialmente é o Sistema de Estágios de Hurley, que divide a doença em três níveis:
- Hurley Estágio I: Presença de nódulos ou abscessos únicos ou múltiplos, isolados, sem a formação de fístulas ou cicatrizes cicatriciais evidentes.
- Hurley Estágio II: Abscessos recorrentes, únicos ou múltiplos, amplamente separados, com formação de fístulas subcutâneas e cicatrizes cicatriciais já visíveis.
- Hurley Estágio III: Acometimento difuso ou quase difuso de toda a área anatômica afetada, com múltiplos trajetos fistulosos interconectados e abscessos confluentes, formando uma rede complexa de cicatrizes.
Existem também outras escalas mais dinâmicas utilizadas em ambiente clínico e de pesquisa, como o escore Sartorius modificado e o IHS4 (International Hidradenitis Suppurativa Severity Score System), que auxiliam no monitoramento preciso da resposta terapêutica ao longo do tempo.
Exames complementares e diagnósticos diferenciais
Embora biópsias de pele e exames de imagem não sejam obrigatórios para o diagnóstico de rotina, eles podem ser solicitados em casos específicos:
- Ultrassonografia de alta frequência: Tem se mostrado uma ferramenta extremamente valiosa. Ela permite ao dermatologista avaliar a real extensão das fístulas subcutâneas, a profundidade dos abscessos e o envolvimento dos folículos pilosos, auxiliando no planejamento de cirurgias.
- Culturas de secreção: Podem ser úteis para descartar infecções bacterianas secundárias ou guiar a escolha de antibióticos em crises agudas muito refratárias.
- Biópsia cutânea: Reservada para casos de apresentação atípica ou quando há suspeita de transformação maligna em cicatrizes de longuíssima data (uma complicação rara, mas descrita na literatura).
O diagnóstico precoce e preciso é a chave para evitar a progressão da doença e suas sequelas físicas e emocionais. Portanto, a avaliação presencial com um dermatologista é indispensável.
